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No fim do mundo em pleno inverno

Muita gente nos pergunta se foi uma boa ideia ir até o Ushuaia, a cidade mais ao sul e mais gelada da América Latina bem no auge do inverno, ainda mais de fusca, um carro sem nenhum tipo de aquecimento. E aí vai a resposta: não e sim. Do ponto de vista do conforto foi a pior escolha de estação do ano que poderíamos ter feito. Isso porque o frio é realmente um grande desafio, ainda mais pra quem não está acostumado como o Rapha e eu que morávamos no calor da praia. Atentem para o detalhe de que durante todo este relato, sempre que eu falar de frio não é o frio que a gente ta acostumado no Brasil, nem o frio que faz dentro da sua geladeira, é bem mais gelado que isso. A Patagônia em si já era muito fria, principalmente durante a noite, como em todo deserto a temperatura se aproxima do 0°c. Cortando aquelas estradas surreais, retas de mais de 300km em meio ao deserto, quanto mais ao sul íamos indo mais o frio mostrava sua verdadeira face.

Em uma noite perto da fronteira com o Chile, antes de entrar na Terra do Fogo, acampamos ao lado de um posto de polícia. Foi a noite mais fria que tínhamos passado até o momento, e pro meu espanto logo pela manhã quando acordei havia cristais de gelo dentro da barraca. Milhares de cristais de gelo minúsculos que brilhavam por todo o interior de tecido preto. Era como estar no céu, um planetário único feito só pra mim, repleto de estrelas geladas. Lembro que desmontar a barraca nesse dia foi difícil pois por fora estava toda congelada, os dedos primeiro ficavam dormentes, depois começavam a doer. Isso foi só uma pequena amostra do que ainda estava por vir.

Cruzamos de balsa o Estreito de Magalhães e quando finalmente pisamos na Terra do Fogo foi que podemos sentir o que realmente era o frio. Em poucos quilometros o cenário começou a mudar radicalmente. O deserto antes de um amerelo queimado passou a clarear até ficar totalmente branco, e quando nos demos conta essa era a única cor que pintava toda a paisagem à nossa volta. Já tinhamos colocado todas as roupas e casacos que haviam e estavamos enrolados em nossos sacos de dormir, e mesmo assim o frio que fazia dentro do fusca era absurdo. O fusca é um carro cheio de frestas e buracos por onde o ar entra, e se o ar já está gelado lá fora imagina quando entra dentro do carro com velocidade. É como andar em um freezer sobre rodas. Era comum os pés ficarem completamente dormentes, como se não existissem, e depois começarem a doer de tão frios. Quando a gente parava em algum posto de gasolina corríamos pra perto do aquecedor pra voltar a ter um pouco de sensibilidade nas mãos e nos pés. Era um alívio momentâneo pois quando voltávamos pro fusca em movimento o ar gelado rapidamente nos roubava todo o calor recém conquistado. Foram várias horas e quilômetros brincando com nossos próprios limites, passando por um extremo que jamais tínhamos chegado nem perto. Parece que há um momento em que o corpo está tão gelado que por si só ele é incapaz de se reaquecer. Parece que as meias, as luvas, as calças, as blusas e os casacos estão tão gelados que ao invés de nos aquecer nos roubam mais calor.

Chegamos em Ushuaia num sábado, 15 de junho, exaustos pelos vários dias passados na estrada com muito frio, pouco conforto e comendo mal. Na semana que ficamos lá nevou quase todas as noites. Crianças aproveitavam pra brincar na neve com seus trenós, cachorros da rua com seus pelos largos rolavam pela neve como se estivessem na areia da praia, e nós de dentro da casa observando tudo pela janela enquanto tomávamos um mate quente pra amenizar a friaca. Quando saímos de Ushuaia e voltamos a subir em direção à Calafate o frio estava um pouco pior do que no dia que chegamos. Com a pista coberta de gelo tivemos que prender as correntes nos pneus e fazer grande parte do trajeto andando a 15km/h. Foram 3 dias na estrada até Calafate, a capital dos glaciais. Depois desse dia ainda pegamos muita neve, em Bariloche mesmo passamos pela maior nevasca dos últimos 10 anos. Mas nada comparado ao frio extremo que passamos no fim do mundo em pleno inverno.

Essa foi minha pequena explicação do porquê escolher o inverno não foi uma boa, agora vem a explicação do porquê foi a melhor escolha a ser feita. Quando saímos de casa pra fazer esse de ponta a ponta nossa intensão era conhecer os lugares mais extremos e sentir na pele o que é esse planeta, testando nossos próprios limites. Ir até o extremo sul no verão não teria sido a experiência completa, agora conhecemos o que realmente representa viver na cidade mais ao sul do mundo. Só posso admirar ainda mais a garra e resistência de todos que escolheram o fim do mundo pra chamar de lar, Ushuaia, um lindo paraíso congelado que jamais vamos esquecer. Se vale a pena ir ao fim do mundo no inverno? Claro que vale! Se quiser passar pela experiência completa e ter uma boa história pra contar deixa pra ir no inverno que será inesquecível.

Adriano Medeiros, Quito/Equador, 4 de outubro de 2019.

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