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Os perrengues entrando no Peru

O Peru foi de longe uma de nossas maiores surpresas, além do choque cultural, desde que entramos no país até chegar em Cusco foi uma verdadeira aventura cheia de desafios que a gente não esperava. Entramos por Tacna no sul do Peru, próximo ao litoral, e seguimos rumo à Cusco que fica no interior do país no meio das montanhas. Na primeira noite acampamos próximo a Tarata, na beira da estrada, com uma vista espetacular para um vale que descobrimos só na manhã seguinte, já que quando paramos pra montar acampamento já era escuro. Acontece muito isso durante a viagem, escolhemos um lugar pra parar sem poder ver direito porque já está de noite, e na manhã seguinte nos surpreendemos com a vista do lugar que é muito mais impressionante do que podíamos imaginar.

No dia seguinte em Tarata não conseguimos um lugar pra sacar dinheiro e muito menos um posto de gasolina que aceitasse cartão, então tivemos nosso primeiro impasse. Tínhamos que escolher ir pelo caminho mais curto até Puno, onde teria postos maiores, mas a estrada por esse caminho era de chão batido com muitas pedras e buracos. Ou iriamos pelo caminho longo até Desaguadero que era pro lado oposto que queríamos ir, mas lá teria caixa eletrônico pra sacar dinheiro pra gasolina, e depois poderíamos recomeçar a subir até Puno e depois Cusco. Pra garantir escolhemos ir pelo caminho mais longo mas sem buracos, já que dirigir de noite numa estrada desconhecida e esburacada é muito perigoso. No caminho até Desaguadero tivemos que subir pela estrada mais perigosa e estranha que já passei na vida. Era uma estrada de mão dupla mas de uma única via, ou seja, tinha carros subindo e descendo ao mesmo tempo por uma pista feita pra um carro só, tudo isso subindo a mais de 4700 metros de altura e passando por penhascos de arrepiar. Quando cruzamos com outros carros era sempre uma tensão, pois tinhamos que nos espremer ao máximo pra passar um carro pelo outro, e o penhasco sempre ali do lado. Já quando era um caminhão que vinha daí era mais complicado ainda. Levamos praticamente a tarde toda subindo com bastante cuidado pra evitar contratempos, mesmo assim em um momento uma camionete quase nos bateu de frente descendo a mil por aquelas curvas surreais, foi por pouco.

Chegamos início da noite em Desaguadero e conseguimos sacar o suficiente pra chegar em Cusco, mas ainda não tinham acabado os perrengues. No dia seguinte era próximo ao meio dia quando a Lya morreu e não queria mais pegar de jeito nenhum. A altitude faz o motor sofrer por causa da falta de oxigênio pra fazer a combustão. Ainda pra ajudar a nossa bomba de gasolina estava com um parafuso espanado o que a fazia perder pressão e não puxar gasolina suficiente. Tínhamos acabado de parar num vilarejo pra comprar pão e na hora de voltar pra estrada a Lya não deu mais sinal de vida. Nessas horas temos que ir testando os possíveis defeitos até acertar e conseguir arrumar. Mexemos na bobina, não era. Limpamos o distribuidor, não era. Abrimos a entrada de ar do carburador, também não era. Tiramos e botamos de novo a bomba de gasolina e nada do motor pegar. Depois de sentar na calçada e comer mais um pão enquanto pensávamos no possível defeito, na próxima tentativa de virar a chave o motor pegou. Nem acreditamos. Subimos à bordo e voltamos pra estrada antes que ele mudasse de ideia. Acredito que era a pressão da altitude na bomba de combustível, que depois de um tempo parada se normaliza e volta a funcionar. Estávamos indo bem quando novamente paramos no meio do nada com esse mesmo problema e tivemos que quebrar a cabeça pra resolver.

Esse tipo de situação vai acontecer durante qualquer viagem. O carro simplesmente apaga numa estrada no meio do nada, longe de qualquer mecânico ou oficina, sem ter pra quem recorrer. Nessas horas não adianta nada lamentar, nem se estressar, muito menos pedir aos céus. O que resta fazer é manter a calma e tentar resolver o problema de qualquer forma que conseguir. A solução nesse caso foi usar um outro parafuso da barraca de teto que era quase da mesma espessura do parafuso da bomba de gasolina que tinha espanado, um pouco mais grosso pra dar o aperto necessário. Colocamos uma porca e umas arruelas pra ele ficar do mesmo tamanho do outro, já que era um pouco maior também, e no fim deu certo, pegou aperto e a bomba voltou a funcionar normalmente. É indescritível o alívio que sentimos quando tentamos mais uma vez dar a partida e o fusca finalmente funcionou. A sensação de missão cumprida é boa demais. Voltamos pro caminho de Cusco. Depois de mais 2 dias inteiros na estrada, desde cedo até de noite, com o fusca sofrendo por causa das subidas que não paravam mais, finalmente chegamos em Cusco, a impressionanre cidade no meio das montanhas.

É um mar de casas a mais de 3.400m de altitude, e a gente sente a altitude tanto quanto o motor da Lya. Quem diria que um pouquinho a menos de oxigênio já faz tanta falta. Da próxima vez vamos trazer uns tanques de oxigênio pra nós e um pro motor pra ver se ele consegue respirar melhor. Piadas a parte eu não daria conta de morar nas montanhas não, viver no nível do mar é muito menos cansativo, não tem comparação. Em Cusco ir na padaria é como correr meia maratona, é curioso como os nativos parecem não se cansar nunca, é uma adaptação física impressionante.

Adriano Medeiros, Quito, Equador, 18 de outubro de 2019.

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